19 março 2007

O apelo da terra



Cresci com os mitos de África típicos da minha geração. A mirada desconfiada aos retornados, a troça sorridente do "África, mãe África", os resquícios de uma culpabilização neo-colonialista reprimida. Nunca entendia plenamente quando me contavam dessa Luanda afastada, quando me falavam dessa Maputo longínqua, quando os olhos de adultos brilhavam pelos cinco anos de vida que lá tinham tido. Mia Couto era o mais próximo que chegava da terra negra e gretada pelo sol. As poucas viagens feitas ao Norte do continente não ajudavam a explicar este fascínio, mostravam apenas um mundo limitado às normas sociais muçulmanas e falsamente ocidentalizado.
Foi só ao afundar os pés na areia do deserto, ao ver o céu brilhante que cobre o Sahara, ao sentir na pele a inclemência de um sol que dá vida para logo a tirar, ao fotografar os sorrisos desdentados de homens esquálidos e fracamente vestidos que aprendem palavras noutra língua, foi só ao sentir África que soube porque lhe dizem "Mãe".

O calor que sobe do chão; os ritmos lentos, marcados, viscerais dos corpos; as terras sem barreiras e de limites tão definidos; o sofrimento humano que a cor da pele nos torna incapazes de compreender.

África é um vírus que nos entra pela alma, que nos sobe pelas veias, que nos polui o imaginário. África não existe para lá da terra; fora do continente negro não passa de uma invenção de gente fantasiosa que um dia sonhou um mundo real. África nunca se esquece depois de termos sentido na boca o sabor do pó dos ossos calcinados, das cinzas enterradas, da terra pisada. Fica a vontade de regressar. De aprender as suas gentes, de conhecer os seus sons, de balsamizar as suas dores, de cantar as suas belezas, de viver as suas terras vermelhas.

2 Somethin' Else:

Anonymous Anónimo escreveu...

Acabo de chegar. E nunca o poderia dizer melhor.


Luv!
M*

março 19, 2007 5:01 da tarde  
Blogger APC escreveu...

Ainda assim, uam coisa é a paixão que se sente ao visitar uma terra que nos prende, e talvez outra ao recordar uma terra que que nos teve, e que nos tem. Sou filha dessa mãe; retornada, então, porque não?... Ainda que sem saber o que é o olhar de esguelha lá e cá, protegida, tão só, pela cor da pele. Ficam os cheiros de um entardecer infinito à beira-mato, catando formiga-de-asa e levando à boca, assim, naturalmente...

março 23, 2007 8:28 da tarde  

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