02 maio 2006

O livro

O vapor do duche ainda se condensa no espelho da casa de banho. Inclino-me e, com a mão, limpo um círculo suficientemente amplo para ver o reflexo. Estás encostado contra a moldura da porta, braços cruzados sobre o tronco perfeito e nu, anca inclinada, havaianas nos pés. As férias estão a chegar ao fim e o passar do tempo acompanha um Verão que se esgota nesta casa de praia onde, enganando tudo e todos, nos recolhemos para fingir que o mundo lá fora havia quebrado de uma só vez. A luz morna do entardecer reflete-se em sombras projectadas no quarto atrás de ti e anuncias no angustiado tom de sempre "O livro está acabado, podes ler".

Quando viro as costas bronzeadas ao espelho reparo nas marcas dos calções mais compridos que usaste nos primeiros dias e que o sol dos últimos ainda não esbateu. Surpreendentemente sei que não te amo e que nunca seria capaz de o fazer. Ainda mais surpreendentemente, tu também o sabes e partilhaste em consciência da minha opção insana de assumir esta parvoíce inconsequente de fugir para o Alentejo da nossa infância. Demasiado Adeus, Princesa nos imaginários adolescentes de ambos, talvez.

Largo a toalha no chão à tua frente e caminho para a pilha de folhas perfeitamente alinhadas no canto da cama. Estão ali umas 500.000 palavras, mais coisa, menos coisa. "Sabes que o vais publicar, afinal de contas és casado com a directora e andas a foder a editora." Abres a torneira do duche. "Rimaste." "Sou tola sem o saber."

Apanho o maço de folhas, abro a porta da varanda e sento-me na cadeira de verga que está virada para o sol poente. Atiro os pés para cima de outra cadeira, acendo o primeiro cigarro e vou na décima primeira página quando regressas, encharcado. "É o melhor de todos, não te parece?" "Talvez. Deixa ver que fim lhe deste e logo te digo." "Vou-to dedicar" "Poupa-me. Por que me amas muito ou porque te revejo a miserável ortografia e te corrijo a pavorosa linha temporal?" "Porque é a tua história, é apenas justo."

Nessa noite jantámos na vila, perdemos a cabeça pelos inesquecíveis cozinhados da tia Dulce e acabámos, bêbados os dois, a cantar Vitorino na falésia. Exactamente nove meses depois, nasce o meu livro que o teu génio arquitectou. A 13 de Maio, para troçar dos nossos pecados. Hei-de arder num qualquer inferno, quem sabe talvez um dia, mas o gozo agressivo que me dá trazer à estampa este fruto incógnito de uma paixão efémera é das mais perfeitas ironias que a vida me ensinou. Os corpos nus que lhe adornam a frente são os nossos. Os desvarios que medeiam as capas foram espremidos da memória e arquitectados em conjunto e não há relato de que algum dia tanta futilidade condensada haja resultado em tamanha obra. A 13 de Maio nasce, num gigantesco gesto obsceno à angústia da escrita e num hilariante manguito à profundidade insondável do amor, o livro.

11 Somethin' Else:

Blogger Navel escreveu...

Hmmm?

maio 02, 2006 9:34 da manhã  
Anonymous Anónimo escreveu...

pois, digo o mesmo que a navel... mais palavras sobre as palavras exigem-se... ou não

maio 02, 2006 2:35 da tarde  
Blogger M. escreveu...

Ficção. :-D

Um amigo vai lançar um livro no dia 13 de Maio (data irónica, já que ele é mormon...) e esta estória apareceu. Assim, puff. :-)

Só isso. :-)

maio 03, 2006 2:51 da manhã  
Blogger Navel escreveu...

Ah!
Lol!
And all this time we were left to think this was it.
Anyway, with such a text, you should present your friend's book. Is he from the States?

maio 03, 2006 9:23 da manhã  
Blogger A escreveu...

Todas as histórias assim semelhantes têm um quê de amargo, de abandono, de ironia...
Adorei.
Escreves muitíssimo bem :)
Estou quase capaz de me esquecer que és do FCP lol

Beijos

maio 03, 2006 5:36 da tarde  
Anonymous Anónimo escreveu...

Gosto mesmo como da forma como escreves, tão crua e real!
Já agora agradeço o link. :)
alguém

maio 03, 2006 7:42 da tarde  
Blogger a miúda escreveu...

O teu amigo mormon lança o livro a 13 de Maio... Hilariante!!!
:D

maio 03, 2006 11:44 da tarde  
Blogger M. escreveu...

Navel,

:-D

Luv, when it's my turn you won't know it through my blog!

Thank you, but I guess I'm too sexual for this dear friend, he wouldn't like to have me talking about his work... ;-)

He's portuguese, amazingly enough, and he converted at 24, I believe. He's an interesting person.

By the way, don't you want to tag along? There's gonna be the book presentation, the vernisage for a photo exibition and a performative arts (...) show. May 13th, 9.30PM. That should be fun, what' you think?


A,

Obrigada! :-D As minhas estórias têm sempre muito de irónico abandono. Deve ser exorcismo... ;-)

E nunca esqueças que eu sou portista!!! ;-)


Caro(a) anónimo(a),

Muito obrigada pelo elogio, se me conhecesse sabia que só há uma coisa que eu prezo mais do que o sentido elogio: a fundamentada crítica. :-D Por isso, sinta-se livre de voltar, ler, elogiar e nunca se esqueça de criticar quando lhe desagradar.

Quanto ao link, se aí está é porque o conquistou e alguma maneira. Se me disser quem é, digo-lhe como o fez... ;-)


nunf,

É a mais deliciosa das ironias.

maio 05, 2006 2:47 da manhã  
Blogger Navel escreveu...

You know I'm in, gal. Just e-mail me the details. Beer before that?

maio 05, 2006 9:26 da manhã  
Anonymous Anónimo escreveu...

Cara m.,
tratei-a por tu porque a senti de alguma forma próxima, espero não ter cometido uma "gaffe".
Não sou totalmente anónimo, assino como "alguém" e escondo-me na condição de anónimo, devido à timidez e falta de confiança na minha escrita que deixo no "estórias sem fim e afins" que com orgulho/satisfacção e algum embaraço vi exposto nos seus "valentines".
Quanto à crítica também penso ser importante, ainda que não seja fácil fazê-la ou tão pouco escutá-la.
Mas terei isso em consideração.
Obrigada, :)
alguém

maio 05, 2006 11:13 da manhã  
Blogger M. escreveu...

Navel,

Details on the go! :-)


Cara alguém,

Não te tratei por "você" como forma de manter distância. Eu sou um bocado espanhola na questão do trato, tuteio toda a gente. :-) Refiro-me a todos os "meus" anónimos primeiro como "você" não vá o diabo tecê-las e estar a insultar alguém. ;-)

Fui parar ao teu blog naquela actividade fantástica que é o voo de links ;-) e gostei bastante do que li. Como reconheci algumas das pessoas que, por tua vez, listas nas tuas recomendações, aí vieste tu parar aos meus queridos valentines. :-)

Compreendo a questão do anonimato. Acho, aliás, que é um dos elementos primordiais para o sucesso dos blogues. Afinal, quem nos conhece, sabe quem está deste lado do ecrã. Quem aparece de novo acaba por conhecer de novas formas. :-) Muito obrigada pelas visitas. :-)

maio 08, 2006 12:11 da tarde  

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