05 março 2006

Memória, esse lugar estranho

Lembro-me da tua pele. Do sabor que tem, das irregularidades que sinto debaixo da polpa dos meus dedos, do cheiro que liberta ao acordar.
Lembro-me do teu sorriso. De como ergues a sobrancelha direita em sinal de troça.
Lembro-me do grave da tua voz. Da projecção que lhe dás quando estamos bêbados a recitar poesia de pé no sofá.
Lembro-me dos teus dedos. Da forma como seguram a guitarra e percorrem as cordas recriando o Major Tom.
Lembro-me do teu cabelo. Do redemoinho teimoso que te encima a fronte e que nunca consegui domar à força de gel.
Lembro-me da tua força. De como me passas o braço por trás das costas e com um único gesto seguro me rodas no ar para me pôr em cima de ti.
Lembro-me da tua espontaneidade. Do jantar em que trepaste da cadeira para a mesa e começaste a cantar o hino francês.
Lembro-me do teu saber. De como me deixas fascinada ao pegar numa frase minha e mostrar-me como afinal sei tão pouco.
Lembro-me da tua frontalidade. Das frases lapidares que me atiras à queima-roupa como verdades prontas-a-usar.
Lembro-me dos teus hábitos. De como voltas sempre atrás para verificar todas as portas do carro, do cabide onde penduras a trela do cão, do ritual mochila-carteira-chaves que antece a saída de casa.
Lembro-me do teu abraço. Do alívio que é saber que no meio do casulo dos teus braços posso relaxar, ceder, suspirar enfim.
Lembro-me do teu calor. De como me empurro contra ti no Inverno e te toco apenas com o pé esquerdo no Verão.
Lembro-me da tua camisola. Da gargalhada que é ir correr para o parque com um homem feito que diz ao peito «I put the "sexy" in dyslexia».
Lembro-me dos teus brinquedos. Das orelhas do Shreck, da miniatura do Batman, do boneco articulado do Tony Hawk.
Lembro-me do teu toque. De como a tua mão rodeia quase metade da minha cabeça, com os dedos enrolados no meu cabelo.
Lembro-me da tua vaidade. De como voltas sempre ao espelho da casa de banho para uma última mirada.
Lembro-me do teu carro. Do cheiro do ambientador e das revistas espalhadas no banco de trás.
Lembro-me da tua presença. Dos olhares invejosos que me lançam quando entro contigo num restaurante ou numa discoteca.
Lembro-me dos teus cozinhados. Do bife com canela e do monstro branco que acabou no jardim do vizinho e que nem o cão comeu.
Lembro-me dos teus ciúmes. Do posicionamento estratégico entre o meu corpo e um hipotético olhar que vais buscar ao arco-da-velha.
Lembro-me da tua cama. Do toque dos lençóis, do cheiro que deixam os nossos corpos, dos locais exactos onde estão os nossos moldes, da distância a que está a mesinha de cabeceira e que me permite apanhar o copo de água mesmo às escuras, das tuas lentes de contacto que secam esquecidas em cima da revista de BD, da estação de rádio que nos desperta todas as manhãs, do teu olhar transparente que me fita sério quando acordo.


Lembro-me de todos os homens que passaram pela minha vida, como se fossem apenas um. Lembro-me de todos os nomes, de todos os momentos, de todos os gestos característicos. Dos livros que liam, da música que punham no carro, dos diminutivos por que me chamavam em público e na cama. Lembro-me de todas as barbas, de todas as unhas, de todas as orelhas. Dos jantares, dos presentes que ofereci, dos sorrisos que recebi. Lembro-me de todas as curvas dos narizes, de todos os contornos dos glúteos, de todas as linhas dos maxilares. Das formas como beijavam, da firmeza ou da doçura dos toques, dos tipos de lágrimas que choravam.

Por vezes acredito que a memória é um terrível algoz. Mas depois lembro-me. Sorrio e lembro-me. E passo ao papel todas as memórias, para que nunca me fujam. Para nunca perder nenhum amor, nenhum amante.


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